domingo, 5 de dezembro de 2021

MeMostra


"Me Mostra" foi a mostra de arte + design + conceito  realizada entre os dias 1° e 4 de dezembro na loja Elementos Móveis & Design, que propôs um novo conceito de exposição. A ideia do nome é uma expressão que convida ao novo, ao olhar de perto para um consumo moderado, especial e exclusivo. A mostra foi um misto de design e arte selecionados que se integraram e interagiram com a loja da empresária Luiza Rocha de Siqueira, que há mais de 30 anos trabalha com móveis contemporâneos e antiquário. 

A mostra contou com peças autorais de cerâmicas feitas artesanalmente pela arquiteta Márcia Magda, o arrojado design em madeira dos móveis e utensílios de Gregory Kravchenko, da Krav Design, batas étnicas bordadas pela estilista Fernanda Pallazzo, as fotografias em luz, sombras e cores do fotógrafo Flávio Lima e o lançamento do catálogo virtual "felicidade ao cubo" pela designer e crítica de arte Tatiana Potrich e obras da artista Marú.
O trabalho marcante da artista e arquiteta por formação, Ana Flávia, a Marú mescla a ilustração botânica à linguística falada e escrita através de delicados bordados em bastidores de madeira. Marú resgata uma linguagem afetiva e caseira aplicada geralmente em situações intimistas, com pessoas mais próximas como uma fala debochada, mas carinhosa, cheia de boas ou más intenções! Como por exemplo, a planta Dieffenbachia seguive, o nome científico da popular "comigo ninguém pode", que a artista substituiu pela expressão "não mexe comigo", título da canção homônima da cantora Maria Bethânia. 
Sua formação acadêmica lhe beneficia na cautelosa execução de carimbos que estampam diversos modelos de cadeiras comuns e populares. Cadeiras de ferro, de madeira, de plástico, bancos de boteco, altos e baixos. Seus delicados desenhos em nanquim reforçam a ideia do sentar, do pensar, do agregar, do acolher, mas principalmente do convívio coletivo. São em reuniões, sentados uns ao lado dos outros, que tomamos decisões importantes, em círculo, em ciclos constantes. 
Marú se revela uma discípula aplicada, fruto de dedicadas horas e atenção ao curso da EAV (Escola de Artes Visuais) ministrado pelo professor e artista renomado Luiz Mauro. Se destaca dentre tantos outros jovens artistas porque não faz uma obra convencional, principalmente por adotar uma postura forte e ao mesmo tempo delicada e feminina.  
A expografia foi assinada pelo arquiteto Cristiano Lemes e a curadoria por Tatiana Potrich. Até a próxima!




MeMostra


 

segunda-feira, 15 de novembro de 2021

Design Floresta

Há tempos disserto à respeito das artes visuais contemporânea brasileira, que é uma das minhas paixões, porém imersa numa infinda pesquisa na arte popular e no artesanato nacional  começo a descobrir a minha mais recente paixão, o design brasileiro. São pequenos sinais de grandes pessoas que vão se aproximando discretamente e quando dei por mim o encantamento me sucumbiu. Mas afirmo: não é difícil se encantar pelo belo, difícil mesmo é se dar conta do merecimento de usufruí-lo. Aos poucos fui me dando esse luxo e venho sendo recompensada!

Encontrei com a designer e arquiteta por formação, Fernanda Toledo num evento na metrópole paulistana, em 2019. Foi lá que conheci sua marca Design Floresta, comprometida com a sustentabilidade e integração com a natureza, seja pelo processo produtivo, seja pela inspiração nas formas, cores e equilíbrio da nossa biodiversidade.

Fernanda cria sapatos respeitando a qualidade da sua matéria-prima e manipula pigmentos naturais com a primazia do design feito à mão e a responsabilidade de um produto que não fere o meio ambiente. Foi amor à primeira vista! Entre anabelas, sandálias, sapatilhas, tamancos e rasteiras, a designer nomeia cada modelo de sua coleção com termos da natureza: Tulipa, Capim, Folha, Flor de Dobradura, Buriti. Navegar em suas redes virtuais é um deleite para os olhos, a alma e os pés.  A beleza da tonalidade das cores, a excelência do acabamento e o criativo conteúdo visual são inspirações preciosas para mim, que inicio meu caminho nesta jornada exigente do mundo do design. 

Design Floresta é mais um presente na minha vida, porque é urgente pensar estratégias de produção que não prejudiquem o meio ambiente. Mais urgente é conscientizar nossos filhos, a próxima geração de como é importante consumir com moderação e qualidade. Estamos vivendo um momento crítico para reflexões de nossos atos, porque as nossas ações terão reações imediatas e não mais a longo prazo. Repensar nossa forma de consumir já é uma prioridade! Pensemos nas florestas, pensemos em nós e na nossa saúde física e mental. Adotemos medidas mais naturais e mais consciente! Façamos por merecer usufruir o verdadeiro belo em nossa vida! 






domingo, 31 de outubro de 2021

Simplicidade criativa

Minha ausência nos últimos domingos tem uma justa explicação, estive imersa numa experiência cultural preciosa em terras mineiras e queria compartilhar com vocês esta vivencia. A Semana Criativa de Tiradentes, que acontece há 5 edições foi uma retomada muito bem vinda após a providencial reclusão pandêmica. A receptividade da cidade histórica, os cidadãos, palestrantes convidados e todos os envolvidos foi um presente para a cultura brasileira, um abraço caloroso dos braços e mãos de tantos artesãos e designers que estão criando novas perspectivas de produção e mercado. O circuito de rodas de conversas, palestras, lançamentos de livros e resultado das oficinas de produtos locais foram catalizadores para uma geração de ouvintes entenderem que ninguém produz mais nada sozinho. O resgate do modo de fazer artesanal aliado aos conceitos da estética do design foi o mote principal  das conversas com Zizi Carderari e a artesã cearense Evanilce Souza (Nequinha), dos designers Ana Vaz e Ronaldo Fraga, as artesãs Andreia Luiza Tolentins e Maria Zélia dos Santos, Ana Cristina Alvarenga Lage, da Fundação Renova e Miriam Rocha, da ACG, oferecimento "Minha Casa em Mim". Um papo sério dando luz às comunidades indígenas foi mediado pelo designer, Paulo Alves e o engenheiro ambiental Angelo Chaves que apontaram caminhos para a sustentabilidade e diálogo com os povos da floresta num entendimento para o uso consciente da madeira. A enriquecedora palestra da curadora paulista, Adélia Borges que nos contou um pouco de sua trajetória, num olhar pertinente sobre a importância da produção da arte popular do país e o efeito construtivo de afirmar nossa identidade como nação, que cria e expande sua própria cultura. E para fechar com chave de ouro um time de peso, com uma conversa cheia de informações e maturidade com os designers Zanini de Zanini, Gustavo Bittencourt, Juliana Vasconcellos, Olavo Machado Melo, Rodrigo Othake e Ronald Sasson, que falaram da carreira, mercado e os desafios da profissão. 

Sem dúvida a conclusão que cheguei é que tudo, tudo, tudinho está no berço de nossa casa, no seio caloroso da mãe que nos acolhe do frio e do choro, na casa que tem cheirinho de café coado na hora, no balanço gostoso da rede, no som suave do canto dos passarinhos, na verdadeira valorização da simplicidade, do aconchego, do chamego da brasilidade. Impossível falar sobre criação sem ter uma referência afetiva, uma avó que costurava e bordava, um ascendente que talhava a madeira em forma de bicho, de deuses e híbridos, nas roupas quentes, leves e confortáveis, tecidas e pintadas por mãos negras, amarelas e pardas. Tudo vem da semente para se fazer raiz, para florescer e dar frutos. Mas a terra tem de estar fértil e regada todo santo dia! Quem valoriza suas raízes ganha o terreiro, ganha o mundo. Quem valoriza a coletividade ganha auto estima e satisfação pessoal!

Foi um evento inesquecível e uma faísca de esperança para mim, que pude constatar que ainda existem pessoas que acreditam no resgate cultural, no diálogo contemporâneo com nossas origens, na produção artesanal consciente e no cuidadoso olhar da estética da arte popular.

"A simplicidade é o último grau de sofisticação". Leonardo DaVinci

Colar Choker Moitará

Eu e o Ronaldo Fraga | 
5ª Semana Criativa de Tiradentes.

Adélia Borges, eu e Regina Galvão | 
5ª Semana Criativa de Tiradentes.

terça-feira, 12 de outubro de 2021

Coração ao Cubo

Reflexões matinais que batem forte ao coração: começando com uma terça-feira de feriado pela padroeira do Brasil, a Nossa Senhora Aparecida e o famigerado dia das crianças. 

Os noticiários, ou podcast poderiam ser substituídos pelo neologismo tipo: "fofoctícias" (fofoca + fictício + notícias). O historiador israelense, Yuval Harari, no seu livro "Sapiens"(2011), descreve a fofoca como fonte de informação substancial na sociedade, através dela se descobrem segredos, se derrubam impérios, se traem e se atraem. O resultado de uma boa fofoca pode provocar mudanças significativas se conduzidas com inteligência e perspicácia, ou não. 

Para comemorar o dia da criançada queria relembrar um caso recorrente, mas que gerou vários holofotes em tabloides mundiais. A cantora americana Britney Spears (1981)  conseguiu sua independência financeira após um período de 13 anos sob a tutela de seu pai. Existem divergentes argumentos sobre o episódio, mas constatar o patriarcalismo vigente e operante a cada dia, ainda mais sobre uma mulher já beirando seus 40 anos parece até ficção. Essa tendência é tão surreal quanto uma menina se casar com um sheik idoso, no entanto as famosas fofoctícias se tornaram naturais entre nós há tempos.

Elas sempre foram uma constante entre celebridades. O filme biográfico sobre Steve Jobs, disponível na Netflix mostra seu lado insensível e cético, assim como suas frias criações. Expõe a ausência paterna e frígida condição para incentivar e investir na educação de sua única filha. O mal comum entre os gênios da humanidade, o fatal narcisismo.  

Uma ficção, mas com pitadas de realismo psicótico é o filme da Disney, "Cruella", que conta a disputa familiar entre mãe e filha sobre um talento hereditário da alta costura e um destino trágico e dramático. Poderia ficar aqui citando e recitando casos caóticos, mitológicos e até comuns entre as famílias de bem, mas a verdade é que as crianças são o reflexo da imagem e semelhança de seus pais e mães. 

O lado bom de ser criança é que a gente começa a aprender a viver na 'sofrência' desde os bullings de outras crianças além da pressão psicológica no seio caloroso da própria família. Quanta porrada verbal trocamos uns com os outros, quanta falta de gentileza, mas claro que superamos, porque para todo mal há cura, há a reza, oração,  meditação,  concentração, malhação, estudo e trabalho que acabam fazendo um contraponto.


Infelizmente ainda não existe um manual para educar crianças em momentos de tensão, fome, raiva, tpm, quebradeira... Mas a vovó sempre tinha uma frase na ponta da língua: "Amor! Amor, minha filha. Família que se ama, família que se sofre". Nonna não era pretinha como Nossa Senhora Aparecida, era uma italiana genuína que depois de certa idade se tornou uma Santa para nós! Com ela aprendi a rezar, a tentar esperar ao invés de duvidar, a entender e perdoar os erros de meus pais. 

Entre fofoctícias, sincericídios e psicopatismos vamos amando, educando na medida do possível, orando e acreditando nesta nova geração transgênica da maçã. Seguimos acreditando no amor do outro, no amor em dobro, ao quadrado, ao cubo e sempre! Felicidade ao Cubo às nossas crianças!

Ilustra o texto "Coração ao Cubo"!





domingo, 3 de outubro de 2021

Divagar é preciso


Certa vez, numa despretensiosa conversa com um crítico de arte goiano, divagando a respeito do Movimento Neoconcreto, chegamos à conclusão que este foi o maior e mais significativo evento da arte brasileira. Não querendo desmerecer a Semana de Arte de 1922 seguido do Manifesto Antropofágico, ou movimentos afins da década de 60 como Grupo Frente e Ruptura, mas no aspecto sóciocultural do contexto histórico ele impactou mais a nossa auto afirmação como cultura genuína do que qualquer outro. A proposta do Manifesto Neoconcreto (1959) escrita pelo escritor Ferreira Gullar (1930-2016) sugere uma experiência com sensações táteis entre espectador e a obra de arte, revela uma empatia às formas geométricas e sublima (em nossa opinião), mesmo que imperceptível um gosto pelas cores e formas indígenas. Mas é claro que esse "programa de índio" foi só uma divagação, porque as bases estruturais do Neoconcretismo foram fundadas a partir de teorias e práticas quase que totalmente científicas. Sua maior referência foi a escultura Unidade Bipartida, destaque da Bienal Internacional de São Paulo (1951) do artista suíço Max Bill, que englobava o Teorema de Pitágoras, a Tabela de Fibomacci e Fita de Moebius. Onde a arte indígena entraria nisso tudo é uma grande teoria da conspiração, mas que o nosso papo rendeu, rendeu...

Fui convencida piamente, através da minha particular trilogia literária, que todo e qualquer movimento artístico brasileiro tem o pé na cultura indígena. “Casa-Grande & Senzala” de Gilberto Freyre (PE), “Viva o Povo Brasileiro”, de Ubaldo Ribeiro (BA) e “O povo Brasileiro – a formação e o sentido do Brasil”, de Darcy Ribeiro (MG) são livros que tem em comum a dissertação sobre o processo de formação sociocultural brasileiro. Pode até parecer loucura, porque não sou nenhuma PhD ou Doutora na área, mas é inevitável pensar em geometria, ou na cor do vermelho encarnado, ou na proposta de interatividade sem resgatar nossas origens ancestrais, nossos rituais, nossa característica primitiva de ser. Numa passagem do livro de Freyre ele ressalta a fenomenologia do filósofo, Merleau Ponty, quando relaciona o paradoxo sobre a rede indígena, onde o repouso é a consequência de um movimento.

Nessa ideia desenvolvi minha pesquisa na joalheria. Minha produção inicial foi com fios de cobre e alumínio esmaltados, cujo manuseio me presenteou com salientes calos, que até hoje preservo nas palmas das mãos. Resultado de uma frenética execução artesanal, decidi frequentar oficinas e cursos de ourivesaria para simplificar meu sofrido e calejado trabalho manual. Doce ilusão, a joalheria é uma arte para dedicados e pacientes artesãos. Enfrentar o cadinho e sua temperatura, medir força e técnica com o laminador, além da cuidadosa percepção e experiência para saber fazer soldas é um trabalho para quem tem vocação. Por isso, decidi executar protótipos e desenhos para materializar peças inspiradas nas teorias do Neoconcretismo, mas sem esquecer da minha origem, do meu passado, da minha tatataravó pega à laço pelo libidinoso tatataravô português.  

Se eu divaguei com o crítico de arte goiano, por que não divagar aqui com vocês, não é!?

Ilustra o texto Pingente Cubos com dobradiças. Foto Rafael Manson.











sábado, 25 de setembro de 2021

O coração é o sismógrafo da vida

Em 2018, a Livraria Cultura abriu suas portas no maior shopping da capital goiana. Uma de suas estratégias de marketing foi a primeira e única edição da Revista ]Cultura[ . Belíssima diagramação, assuntos inteligentes dissertado por colunistas renomados e um artigo específico que fica martelando a minha cuca até hoje a começar pelo título: "Os museus tem futuro?" O texto discorria sobre as incansáveis tentativas desses espaços permanecerem vivos e úteis à sociedade. O dilema era: privilegiar a arquitetura tornando o próprio prédio uma atração à parte ou investir num acervo que se pautasse em questões da contemporaneidade e em tecnologias?

"Diria que na segunda década do novo milênio os museus são sismógrafos da cultura. Para que servem mesmo os sismógrafos?" (Hugo Segawa)

Refletir sobre os nossos abalos culturais diz muito à respeito da política vigente e de como a relação entre a sociedade e os artistas está. Aquele velho ditado "quem gosta de passado é museu" é bem verdade e eu gosto muito de museu e também de algumas lembranças do passado.

Em 1995, minha mãe realizou a Mostra "Objetos" do artista cearense, Luiz Hermano (1954), onde algumas  destas obras foram apresentadas anteriormente no MAM - Museu de Arte Moderna de São Paulo, na mostra "Esculturas para vestir" (1994). Esse evento foi um marco para minha vida. Não porque eu gostasse de trabalhar com o mercado de arte, mas pela oportunidade de ver uma produção cultural de alto nível tão perto de mim. Essa experiência fez meu coração bater forte e tive uma sensação inspiradora. Foi um evento inesquecível, naquele momento associei imediatamente suas obras à minha infância, na brincadeira de tecer bijuterias para minhas bonecas, trançar os fios dos cabelos entre nós, laços e fitas, minimizar os rococós e espirais pelas formas geométricas e modernas.  Retorno às reminiscências desta situação, porque percebo uma retomada, mesmo que modesta, destes artistas admiráveis, artistas que são celebridades de verdade. O sismógrafo vem marcando uma nova onda, um novo começo de era, de gente fina que está descobrindo que atrás da manada não se pode mamar, nem enxergar nada pela frente.

Melhor mesmo é seguir os embalos ao em vez dos abalos.

Melhor mesmo é sair ao vento com um caderno de anotações na mão ao em vez da máquina fotográfica ou aquele iPhone pré-lançamento, porque os bons momentos do passado só ficam eternizados mesmo em nossa memória. Afinal, nosso coração é o sismógrafo da vida. Ou ele bate pela emoção real, ou ele se engana vivendo em ilusão!

E que prossiga batendo firme para podermos viver em conexão com o nosso passado, presente e futuro. Sigamos um ao lado do outro, nem atrás, nem a frente, juntos!

Ilustra o texto, eu com obra "Colméia", de Luiz Hermano, em fitas de cobre amarradas umas nas outras.



domingo, 19 de setembro de 2021

Suzana

Minha vó materna se chama Suzana.

Ela é do signo de escorpião.

É mãe de 5 filhas(o): Marúcia, Marina, Márcia, Débora e Custódio Júnior.

Dona Suzana foi dona de casa por toda vida.

Gostava de uma jogatina e embaralhava cartas como ninguém.

Era sagrado tomar seu café da tarde fervente e bastante adoçado.

Pintava e bordava para adornarmos nossas bonecas com belos vestidinhos.

Foi daí que eu vi, pela primeira vez, uma caixa de costura.

Linhas, novelos, carretéis, botões, retalhos... Muitos retalhos que ela usava para confeccionar as roupinhas dos personagens que estampavam suas pinturas naifs. Eram saias, ceroulas, calças, botas, balões, pipas, fogueiras e até lona de circo. Bordava almofadas, panos de prato, forros de mesa e calendários em patchwork. Lindos!

Dona Suzana foi uma senhora vó, sem esquecer de contar seus gatos, que sempre foram companhia mais afetuosa que os cachorros, principalmente Rosinha, a matriarca de toda uma geração de felinos.

Entre a sujeira orgânica da fazenda, seus afazeres domésticos, seu fumo de rolo, sua vida simples e suada, vovó compartilhou momentos à beira do fogão à lenha, no doce café com leite que tomávamos no curral, na mesa de carteado, no altar para todos os santos, no cavalete manchado de tinta e na sua imortal máquina de costura. 

Sua vida colorida foi cheia de laços de fitas para suas filhas, para suas obras, para suas netas. 

Desde a feitura da pamonha em luminosos tachos de cobre ao barro do casebre de pau à pique, os novelos dourados em abundância e a escassez de preciosos fios de ouro, da forma bruta à fornada de roscas assadas na hora, vamos aprendendo com os nossos antepassados à preservar costumes e valorizar nossas origens. É a síntese do provébio da rapadura: doce e dura realidade da vida! O rústico e o contemporâneo! De mães para filhas, de avós para netas, de mulheres para meninas, num sagrado ciclo feminino.

Ilustra o texto Calendário bordado por Suzana de Abreu e Pingente Hipercubo, em latão banhado e fios coloridos de lã.



Dona Suzana e eu na mostra "Nosotros - a arte e o corpo humano" (2017)


domingo, 12 de setembro de 2021

Escolhas do Ego

O documentário "O Século do Ego" (2002), disponível no Youtube, trata de uma longa aula de história e psicanálise associada ao poder de marketing sobre escolhas do inconsciente e suas consequências. Assustadoramente somos movidos pelos nossos mais profundos instintos e o médico neurologista Sigmund Freud (1856-1939) foi o pioneiro em decifrar o porquê desta vulnerabilidade psíquica e como poderíamos conduzí-la da melhor forma. Fácil não é, mas hei de permitirmos nos esta singela experiência sobre o assunto. 

É impressionante como o marketing do sistema capitalista funcionou ao longo dos tempos e como ele ainda nos induz a querer consumir coisas as quais não necessitamos. Mais impressionante é como a propaganda pode ser eficiente para derrubar governos ou levantá-los. Uma prova desta eficácia é que depois do Nazismo de Hittler o termo "propaganda" foi terminantemente proibido de ser utilizado. Edward Bernays (1891-1995) sobrinho de Freud, que morava nos EUA, utilizou outra terminologia para ocultar as verdadeiras intenções das estratégias da propaganda e por causa disso ficou conhecido como o "Pai das Relações Públicas". Querendo ou não somos impulsionados (o que Freud denominou de pulsões) pelo desejo, pela incansável vontade de ter prazer e sermos felizes. Errado isso não é, mas cada um paga seu preço. 

"É quase impossível conciliar as exigências do instinto sexual com a civilização". 

E ainda:

"Todos os seres humanos ocultam a verdade nos assuntos sexuais".

(O Mal-estar na Civilização - 1930)

As pesquisas de Freud incomodaram muita gente e foram polêmicas para uma Europa conservadora, com isso ele acabou passando por dificuldades financeiras, mas teve a ajuda de seu sobrinho, que pretendia divulgar o trabalho científico do tio por toda América.

Carl Gustav Jung (1875-1961) contribuiu com a Psicanálise contrapondo as ideias de Freud acrescentando certo esoterismo em seus métodos. Frase de Jung: 

"O homem que não atravessa o inferno de suas paixões também não as supera".

Estudos apontam que quanto mais nos autoconhecemos mais somos capazes de dominar nossas paixões e fazermos escolhas conscientes, tanto para o ato de consumir o que realmente precisamos, quanto para conviver com pessoas que realmente amamos. 

O controverso BDSM (bondage, dominação, disciplina, submissão, sadismo e masoquismo) está aí para provar que conseguimos domar nossos instintos, mesmo que tenhamos que bater ou/e apanhar para aprender. Afinal, ninguém aprende só com o carinho do colo da mamãe. Em alguns momentos da vida, o aprendizado eficiente se dá através de umas boas chicotadas, ou não!?

Ilustra o texto Pingente Cubos com Franjas.




 

domingo, 5 de setembro de 2021

A mágica da vida

O arquiteto hungaro Ernö Rubik patenteou sua invenção, Cubo de Rubik ou Cubo Mágico, em 1974. Movido pela incansável ideia de construir uma estrutura cujo centro permaneceria imóvel e todo seu entorno se deslocaria trocando de lado, espaço e altura, ele mesmo levou um mês para decifrá-lo. O brinquedo se tornou popular e conhecido mundialmente angariando uma multidão de adeptos em decifrá-lo o mais rápido e com menos movimentos possíveis. 

Essa interessante ideia de Rubik me impulsionou por associá-la, metaforicamente, com nosso código genético. Somos "programados" por modelos hereditários, que é a origem de todas características físicas e/ou quase todas emocionais e entendendo que nosso entrono, isto é o meio à nossa volta, pode ser modificado somos capazes de transformar o que está externo: nosso ambiente de trabalho, trocar os móveis da casa, ou trocar de carro, ou começar um novo namoro, ou mudar a cor do cabelo ou aumentar até a espessura dos lábios sem alterar o principal, nossa essência, nossa parte central, o núcleo, a raiz... Já cantava o pernambucano Chico Science:

"porque eu desorganizando posso me organizar/ porque me organizando posso desorganizar"

Pode parecer uma metáfora um tanto louca, mas o cubo de Rubik é um quebra-cabeça  com trilhões de combinações. A vida é mesmo um quebra e conserta cabeças! Minha mãe sempre dizia: "onde o ferro vai, a ferrugem vai atrás". Ou ainda o dito vulgar popular: "a pessoa sai da favela, mas a favela não sai dela". Na literatura temos a máxima no best-seller norte-americano, "O Grande Gatsby" (1925). Ninguém muda radicalmente a essência, o DNA é o que nos define assim como a parte fixa do cubo do arquiteto. Modificamos as coisas ao redor, que consequentemente alteram o meio, mas não podemos fugir de quem somos. A mágica é fazer e se desfazer, montar e desmontar, organizar e desorganizar, porque tudo é movimento, tudo se move para voltar pro mesmo lugar, tudo muda para continuar como está, ou não!? Do pó ao pó! Essa é a mágica! Bora viver a magia e o movimento da vida, porque ninguém vai sair vivo daqui.

Ilustra o texto, Ernö Rubik e seu cubo mágico (imagem extraída do site www.designboom.com). 

Pingente Cubo Mágico como opção de objeto para decoração.






domingo, 29 de agosto de 2021

Fernandas

Sempre tive apreço pela atriz Fernanda Montenegro! Mal sabia que a empatia iria mais longe até começar a ler sua biografia "Prólogo, ato e epílogo". Fernanda é descendente de italianos e portugueses e a peculiaridade com que escreve atos e atitudes de seus parentes me remeteu à história dos meus, embora invertidos, minha família paterna é italiana e a materna, portuguesa.

"E haja coração também para minha herança luso. Ao contrário dos italianos, barulhentos e briguentos, mas ao mesmo tempo amorosos, prontos para o congraçamento, os portugueses, do lado paterno, eram sombrios e difíceis". 

(Eu te entendo perfeitamente, Arlette!)

Uma curiosidade da vida amorosa foi sua confissão à respeito de seu primeiro e único parceiro por toda vida, Fernando Torres, cujo nome de batismo foi dado à filha e adotado pela atriz como nome artístico. 

(Isso é que é romantismo!)

Num trecho do livro ela avalia com parcimônia e pouca modestia que sempre gozou de muita "beleza interna", ainda que tenha interpretado poucos papeis como femme fatale, se destacando em todos, foi seu senso crítico e sua alta auto estima que sempre souberam se colocar nos papeis ideias para seu biotipo.

Como se não bastasse ser dama imortal dos palcos e das telas, a atriz nos brindou com sua filha prodígio, uma lady das comédias, uma dama à altura da mãe ou um tanto mais alta. Dona de uma retórica inquestinável, Fernanda Torres faz jús ao nome e à genética.

(Não à toa o significado deste nome seja a "ousada para conquistar a paz"!) 

Duas personalidades, digo melhor, duas verdadeiras celebridades que me inspira, me impulsiona a acreditar nas gerações futuras e a seguir com coragem e ousadia. 

(Uma Fernanda é pouco, duas é bom demais!!)

Ilustra o texto contra capa do livro de Fernanda Montenegro e minha paródia com Pulseiras Low Cube, ou Cubos Achatados.